Cuidado! Não se aproxime, a realidade pode matar.

perigo a realidade

Quando o conheci ele tinha apenas 19 anos, era novo nessa história toda, de enfrentar o mundo, mal parecia entender o que estava acontecendo a sua volta, a blusa era larga, o corpo franzino e a calça de moletom…, tudo bem que algumas vezes as pessoas que trabalham com o corpo sentem repulsa apenas com um olhar em si, mas mesmo assim aquilo ainda era muito ambíguo para minha pobre alma compreender, veja bem eu fazia matemática e bancava os custos da faculdade com o trabalho de depiladora, é eu era depiladora.

Existia um motivo para eu não atender em casa, junto com a freguesia “normal” eu tinha a base dos meus lucros, eu fazia a depilação de alguns atores pornôs. É isso aí, vamos combinar que os “idealizadores” desses “projetos” não eram lá flor que se cheire para saberem meu endereço.

Sabe aquele ex legal, que te apresenta a uma vida obscura? Jonatas descobriu que eu tinha feito um curso de estética e depilação, e me apresentou a algumas pessoas, terminamos, mas os contatos ficaram, e para ser bem sincera, eu ganhava muito mais do que nos estágios que eu arrumava.

Me lembro que nesse dia ele demorou quase meia hora para retirar a roupa e se deitar na maca.

_Não vai doer. – Essa era a minha frase para todos, com o tempo eu acabei percebendo que era mais fácil não encarar determinadas pessoas, esse era o caso, eu tinha a ligeira impressão de que a cera poderia ser veludo, que ele continuaria a sentir dor, quando eu finalmente acabei pude ouvir aquele suspiro pesado, e cheguei a sorrir. _Depois você se acostuma.  – eu sorri enquanto o ajudava a se vestir.

_Acho que não… – ele mordeu os lábios enquanto me pagava. É ele estava certo, e por mais que eu quisesse realmente acreditar que ele falava da coceira, e do leve incomodo da depilação, tinha a certeza que não era disso que estava falando.

Durante as três primeiras depilações dele, ele não falava nada, nem eu também, na verdade eu conversava com as pessoas quando as pessoas falavam comigo, não era o caso, e até compreendia, com o tempo passei a compreender a maneira evasiva, não era porque ele trabalhava com sexo que ele não tinha vergonha, que ele queria “dar” para todo mundo, o entendia, eu achava que o entendia.

_Você tá mais nervoso hoje que nos outros dias. –  eu falava calma enquanto ele fechava os olhos apertados e tentava manter as pernas paradas e abertas. _Relaxa, que só falta uma coisinha aqui. – Tudo bem faltava mais, mais o garoto estava tão incomodado, que dava dó, e pela forma como as coisas estavam ali, ele tinha trabalhado bastante.

_unhf – foi um suspiro tão profundo que eu acabei desistindo de terminar aquilo, nem era tanto assim, abaixei com cuidado a perna dele e esperei que ele se acalmasse, depois que se vestiu ofereci um copo d’água, me sentei no meu canto, foi quando ouvi um leve roncar, sim ele estava com fome eu até tentei ignorar aquilo, já tinha ouvido sons bem mais constrangedores, achei que fosse um efeito normal, mas ele realmente estava com fome, as mãos chegavam a tremer a cada suspiro, tudo bem, tudo bem eu não era tão de exatas assim e acabei me comovendo enquanto ele calçava o tênis velhinho.

_Tem um bolo aqui você quer? – Eu acabei oferecendo sem nem saber o motivo, e como ele acabou demorando para responder eu cortei um pedaço generoso do bolo e o servi. _Toma é de maçã e canela. – ele não me olhou, apenas acenou que sim e pegou o prato da minha mão, comeu em silêncio,  nem percebi quando ele tinha acabado e colocado o prato no canto.

_Obrigado. – Se levantou e tirou o dinheiro do bolso para me pagar.

_Não precisa… – cheguei a morder a língua, falei meio sem pensar e ele continuou estático _Eu nem terminei o trabalho direito – ele me olhou apreensivo. _Não dá nem pra vê, não se preocupe, mas sou muito perfeccionista então não posso aceitar o dinheiro.

_Mas… – ele olhou para o dinheiro e olhou para mim. _Eu tenho que te pagar.

Eu o olhei por alguns minutos enquanto ele revezava seu olhar em mim e no chão.

_Estou falando que não precisa, então pode falar que me pagou, eu sei que eles pagam a metade do valor e vocês pagam o resto.

_Você não vai perguntar nada?

_Não

_Você também não vai contar nada?

_Não – revirei os olhos enquanto me sentei na cadeira.

_Por que você vai me ajudar? – Eu definitivamente não tinha paciência, por isso minha perna a essa hora já começava a bater no chão, e pior eu nem sabia a resposta para a tal pergunta.

_Não te interessa.

Ele mordeu os lábios e guardou o dinheiro enquanto murmurava qualquer coisa.

_O que você falou?

_Quer ir amanhã no estúdio? – lembro que cheguei a me inclinar para frente enquanto arqueava a sobrancelha, me perguntei de onde havia saído aquela criatura, tudo bem eu assistia filme pornô gay, porque vamos combinar que a indústria pornô hétero só sabe fazer falsos gemidos, para disfarçar o abuso, não que na indústria pornô gay não houvessem abusos, é só que não eram mulheres.

_OI? – Definitivamente eu pensei ter entendido errado, quem iria querer estragar o falso moralismo indo assistir a uma gravação dessas? Vamos combinar que não deve ser nada legal ser filmado enquanto faz sexo e ter suas posições meticulosamente programadas.

_É que podíamos almoçar depois da gravação, assim eu te pago. – ele falou sem me encarar.

_Não precisa me pagar ok, eu não te fiz um favor e vamos deixar claro que não somos amigos. – Existe um grande defeito na maioria das pessoas, sabe quando você não olha nos olhos das pessoas? Então esse não foi o momento, eu pude ver o exato momento em que aqueles olhos pequenos demais se encheram d’agua e recuaram para o chão, me perguntei mentalmente porque raios um menino daquela idade iria querer a amizade de uma depiladora estudante de matemática.

_Unhum. – ele mordeu os lábios e fincou os pés no chão preparando-se para ir embora, meu coração definitivamente deveria estar acumulando o peso dos 23 anos, eu me levantei sem saber o que fazer e acabei falando com ele.

_Nós podemos ser amigos se você quiser.

_Sério? – Mal percebi quando os braços envoltos naquela camisa larga e fina me apertavam. _Obrigado.

Eu não soube o que fazer, minhas mãos acabaram de forma automática o circulando. Bem foi assim que nossa “amizade” começou, eu realmente não iria querer ser amiga da minha depiladora.

No dia seguinte as coisas enfim colaboraram para que eu conseguisse chegar na hora, não sei se vocês sabem, mas os estúdios de filmes pornôs de baixo orçamento são tudo menos estúdios. Fiquei o esperando no corredor que dava de frente para aquela porta de apartamento, quando as primeiras pessoas saíram em meio a descontração, alguns me reconheceram, a última pessoa que saiu foi meu novo amiguinho, coberto o suficiente para que eu estranhasse, afinal até o típico inverno no Rio de Janeiro é um inferno.

_Tá meio quente né? – eu falava rindo enquanto o olhava _Onde vamos comer?

_Você pode escolher? Eu meio que sou novo aqui. – o olhei meio perdida enquanto tentava entender aquela frase.

_Você não conhece o Bairro?

_Naum – ele inflou a bochecha e ri um pouco pedindo para que ele me acompanhasse. _Eu vim de outra cidade.

Ele falou baixinho enquanto me olhava, acabei decidindo o levar para uma lanchonete perto do meu mini salão, era mais confortável que almoçar com os olhares devoradores de qualquer um que o conhecesse.

_Você não liga?

_Não ligo para…? –  eu o olhei meio confusa enquanto ele dava mais uma mordida no hambúrguer e se afogava no copo d’agua.

_Não liga em ser amiga de um ator pornô? – Ele falou limpando as mãos no guardanapo, ok, eu ligava, mas não tanto assim e ele não precisava saber disso. Pensando bem foi ele que quis ser meu amigo e não eu dele.

_Não, não ligo. – eu respirei enquanto o observava comer com um pequeno sorriso. _Então como exatamente você foi parar ali?

_Eu vim fazer faculdade, meu ex estudava aqui, ele me ajudava mas nós terminamos então como eu não posso pedir ajuda para os meus pais eu meio que faço isso para me manter. – o encarei estreitando os olhos, tinha certeza que tinha mais caroço naquele angu.

_Unh… – Dei mais uma mordida enquanto ele me olhava. _Sempre achei que as pessoas precisassem de uns contatos para entrar nesse meio. – ele concordou enquanto me olhava e fechava os olhos.

_Sim…, meu ex, ele era o contato. Era isso ou desistir de tudo, não tenho ninguém aqui e o valor de um estágio mal cobre meus gastos com material – ele engoliu o choro, enquanto eu o encarava, eu sabia que deveria tê-lo abraçado.

_E seus pais?

_Eles acham que eu sou doente… –ele cuspiu as palavras, eu logo entendi pais homofóbicos, garoto sensível, namorado safado e abusivo, eu me perguntei “como fui parar ali?” _Desculpa você tá me ouvindo? – ok, eu realmente estava perdida em meus pensamentos, mas resolvi assentir.

_Ouvi sim, sinto muito.

Bem no fim daquele dia eu tinha certeza que ele viria mais vezes me visitar, foi o que aconteceu de fato, com o tempo eu acabei me acostumando com a figura sentada na antessala da minha sala.

_Para onde vamos? – ele vinha correndo atrás de mim, enquanto eu destrava o carro, e pedia para ele entrar, me lembro que ele sorriu como uma criança quando saímos do carro e se deparou com a porta de entrada do MAM (Museu de Arte Moderna), sim eu tinha armado um piquenique para comemorar os 20 aninhos daquela criança. Estava fazendo minha parte para mudar o mundo. Nos divertimos, na verdade ele se divertiu enquanto me contava coisas aleatórias. Ele acabou dormindo no banco do carro e eu acabei o acordando só quando chegamos na minha humilde residência.

_Oi? – Eu sorri enquanto passava a mão no braço dele e ele acordava assustado. _Ei sou eu a Lorena, calma!

_Anran! – Ele tentou se aquietar e eu fiquei mais uns minutos no carro. _Onde estamos?

_Minha casa? – Apontei para meu pequeno empreendimento em um bairro modesto na zona oeste da cidade, Madureira. _Se importa de dormir aqui?

_Não precisa, eu vou de ônibus.

_Noup! Se for pra você ir, eu te levo, mas pode dormir aqui. – ele a olhou apreensivo e mordeu os lábios. _O que aconteceu?

_Eu não tenho roupa!

_É só isso?

_Unhum!

_Eu tenho um pijama que o Mário nunca usa, literalmente, só não tenho cuecas, mas tenho pijama. – falei entre risos

_Sério?

_Claro, pode usar. Vamos entrar? – ele assentiu positivamente e abri a porta, quando entramos ele se sentou no sofá da sala me esperou ali, seus olhos pequenos vistoriaram cada canto, era uma casa pequena mas aconchegante, ela voltou sorrindo com o pijama verde na mão, toalha e sabonete.

_Pronto… O banheiro é a próxima porta no corredor – enquanto ele foi tomar banho, preparei alguns hamburguês. _Ficou bom em você, só tá um pouco largo – ele levantou a manga sorrindo, também estava um pouco grande.

_Obrigado. – era fácil o agradar no fim das contas, principalmente quando se estava com comida. _Senta aí e coma, vou arrumar sua cama na sala, meu quartinho da bagunça tá muito bagunçado.

_Unhum, obrigado por fazer esse aniversário especial. – não pude me evitar sorrir, eu peguei o colchão arrumei no chão da sala, empurrei o sofá e coloquei as cobertas, parecia até minha mãe quando eu era pequena. Eu fui tomar banho e quando voltei ele já estava dormindo sentado na cadeira. _Ei, por que não foi para a cama?

_Escovar os dentes. – ele falou quase no modo automático, pegou a escova na mochila no canto da sala e quando voltou me abraçou apertado, um abraço que foi retribuído, ele se deitou e ao invés de dormir, eu enrolei por mais alguns minutos, quando ouvi um choro abafado pelo travesseiro, quando me aproximei ele se enrolou ainda mais na coberta tentando se esconder.

_Eu sei que você tá acordado – falei rindo

_Você nunca me perguntou se eu gosto?

_Acho que eu não quero ouvir a resposta. – eu falei meio de sopetão.

_Unhum.  – Se cobriu quase até o pescoço e virou para o lado, ele queria falar e eu não poderia dizer que não queria ouvir.

_Mas você pode falar.

_Eu não gosto…

_E o que mais?

_Sabe quando se é mais novo parece que tá todo mundo olhando porque sabe que você é gay? Agora parece que todo mundo sabe que eu faço aqueles filmes, alguns atores são cuidadosos, mas mesmo assim eu não gosto, é ruim ter uma câmera no seu rosto enquanto você finge emitir um gemido e um cara tá te fudendo com tamanha violência que você ouve o impacto do saco dele com a sua bunda, eu não queria, não, não queria, é como se eu fechasse os olhos e pudesse ver perfeitamente o membro deles deslizando pra fora e para dentro de mim, meu corpo se movendo sem eu querer, seguindo o ritmo ditado pelas mãos de outros, eu desvio os olhos enquanto sou obrigado a sorrir – ele havia começado a chorar e eu mal percebi quando me sentei ao seu lado e o deitei na minha perna.

_Tá tudo bem… – eu não estava falando pra ele, não, não estava tudo bem com ele, não estava tudo bem comigo, mas eu estava tentando me convencer.

_Não tá tudo bem… Eu odeio fazer isso, e odeio ter que acordar amanhã e saber que terei que fazer novamente e assim durante dias, eu odeio saber que esse dia só foi por hoje.

_Calma… – eu precisava me acalmar, eu tinha feito tudo que podia… Não, foi nesse momento que eu percebi que tudo que fiz, foi por mim, e eu não tentei sequer me aproximar para fazer tudo que podia.

Ele se engasgava no próprio choro enquanto eu o abraça. E com muito esforço eu consegui compreender duas coisas, não havia muita diferença entre uma pessoa que se prostitui e uma pessoa que faz filme pornô, não importa por qual necessidade você os pratica, a finalidade quase sempre é a mesma, assim como também não havia diferença entre o abuso sexual e o que algumas vezes aqueles atores praticavam uns nos outros, se você não tá sentindo vontade, tá fazendo por ser obrigado, por necessidade, você tá sendo abusado sexualmente, aquilo me enjoou de uma maneira que eu não consegui dormir com aquele bolo na garganta.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Essa foi a história pessoal mais tensa que já li. É verdade mesmo? Ou é uma Cronica?
    Me faz lembrar de um filme chamado “O substituto”. Algumas parte do filme, não no geral e por completo.
    Existem tantos e tantos buracos obscuros dentro de nossa sociedade e a necessidade de dinheiro e as contradições sociais nos levam a casos que mesmo sendo reais fechamos nossos olhos para tentar acreditar que são apenas ficção.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Juju Marques disse:

    É uma crônica, rsrs, grata por comentar. Irei procurar esse filme, fiquei com vontade de conhecer a história.
    Quando escrevi a intenção era questionar justamente isso, quantas vezes fechamos os olhos para os buracos que nós mesmos abrimos. Seguimos uma ordem social que visa o bem estar do *eu* e não do *nós* , então mesmo qndo nossas ações são direcionadas a outras, muitas vezes é para o nosso bem que a fazemos, para nos sentirmos melhor.
    É claro q eu também queria escrever uma história cujo os personagens principais não fossem o típico clichê.

    Grata por esses comentários inspiradores.

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