Sexo, sexo, sexo e Mulheres

silhueta-adesivoE eu te farei as vontades

Direi meias verdades

Sempre à meia luz

E te farei, vaidoso, supor

Que és o maior e que me possuis

(Chico Buarque, Folhetim)

Atire o primeiro verso quem já não ouviu uma cantada na rua por causa da roupa que vestia, ou só por se mulher? Quem não se sentiu constrangida e até mesmo com medo por conta disso? A grande realidade é que nós, mulheres, apesar do século, ainda somos vistas como um pedaço de carne, uma prenda, uma caçada, algo que tem que ser alcançado. ‘‘Prendam suas cabras que meu bode está solto’’.

Não, eu não gosto de me ver comparada a um objeto sexual, e pior ser ligada a bebidas alcoólicas, ter meu corpo rotulado e comercias me dizendo que tenho que ser sexy e provocante. Posso até ser sexy e provocante, mas eu tenho o direito de não ser só isso, de ser mais do que simplesmente o meu corpo, de ser um pouco mais do que as curvas das modelos, das famosas grifes europeias, desculpe-me não sou Europeia e meu biótipo não me fez assim, não me prenderei a isso, julguem-me…

Atire o primeiro copo quem nunca se olhou no espelho e não se sentiu perfeita da forma que era, quis quebra-lo, taca-lo longe, esconde-lo com um pano preto, afinal a culpa era dele de não sermos como as moças dos comercias e as modelos, a imagem do feminino é inventada pela mídia que nos faz pensar que somos imperfeitas e comprar mais e mais a imagem da perfeição nas prateleiras de cosméticos. Tudo bem, gostamos de nos sentir bonitas, e por isso compramos, opa houve um erro nessa frase! Compramos para nos sentir bonitas, mas quem definiu esse padrão de beleza? Para quem queremos ser bonitas, para outros ou para nós?

E é nesse ponto que finalmente chegamos, o consumismo, o mercado, as prateleiras, as revistas, as academias, os produtos Detox, não vejo nenhum problema em nenhum desses itens. Mentira, eu vejo todos os problemas, incluindo no meu pote de sorvete e no chocolate que como para compensar minhas frustrações, eu sei que cada um deles vende uma imagem de mulher perfeita, que a sociedade espera que eu siga. Eu não sou perfeita, e pior não tenho a menor ideia, se a ideia de beleza que eu tenho foi algo que eu criei ou se me foi completamente induzida.

Simone de Beauvoir um dia falou que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Atire o primeiro vestido, de preferência o rasgue quem nunca se teve estigmatizada só por que preferiu os livros a balada, as lutas ao balé? A sensibilidade feminina é algo inventado, já houve um tempo em que as mulheres sequer criavam seus filhos, até mesmo o amor materno é uma invenção moderna para segurar as mulheres. O que são as bonecas, as casinhas, a divisão de brinquedos em azul e rosa, em brinquedos de menina e menino se não a rotulação do que as meninas podem e não podem ser…

Pensem amados leitores, mulheres foram presas apenas por dizer que amavam e que esse amor não eram por seus maridos aos quais foram obrigadas a se casar, ao longo dos séculos nossa liberdade foi fielmente castrada, nossos desejos extintos, nossas roupas redesenhadas não para nos agradar mas agradar aos olhares, calça não era coisa de mulher descente, nossos cabelos foram quimicamente tratados para ceder a um padrão de beleza que não era o nosso, nos foi ensinado a obedecer sem questionar, a não falar sobre determinados assuntos, a torna-los tabus e só serem tratados nas rodas de amigas.

O que somos, sobre o que falamos, o que vestimos, o tamanho da minha saia, meu jeans apertado, nossos gostos, curvas e desejos, não deveriam ser tabus. Somos seres humanos antes de tudo, não derretemos como açúcar na chuva, não necessitamos que alguém nos proteja, nossa roupa não deveria ser controlada, quem vai vesti-la somos nós e não eles, temos desejos e sentimos vontades, isso não é privilégio do sexo masculino. Atire o primeiro batom quem nunca deu aquela olhada na bunda do rapaz, sentiu um enorme desejo de gritar ‘’gostoso’’, ‘’ah lá em casa!’’, ou quem sabe ainda em um pensamento mais ousado sentiu vontade de passar aquela mão boba, “ops, escorregou! ’’. A verdade caros leitores é que nós mulheres não fazemos isso, não com frequência, se fazemos somos rotuladas de inúmeros adjetivos que não vale aqui mencionar, enquanto os rapazes são rotulados com adjetivos que exalam sua masculinidade. E só como ressalva a esta frase mal formulada os corpos sejam do sexo que for, devem ser respeitados e tocados apenas quando for do desejo e do consentimento de ambos, não somos objetos que são simplesmente manuseados a vontade alheia.

Meus caros leitores, porque essa introdução para falar de sexo? Simples, sexo não é algo simples, é algo que vai além dos desejos e das mãos nas inúmeras partes de dois corpos, ou dos inúmeros orgasmos em uma única noite, ou ainda dos gemidos naquele pequeno cômodo, sexo é isso, mas também é aquilo. E quando eu falo “aquilo”, refiro-me à liberdade de se fazer quando e a onde quiser, da forma que quiser, e principalmente com quem quiser, sexo é um tabu comercializável e rentável. E todas aquelas ideias da mulher perfeita se empregam finalmente a esse ponto, no sexo, nos orgasmos fingidos, em toda a ideia do corpo perfeito por baixo dos pedaços de pano que componha a fantasia, para quem nos vestimos nessa hora? Queremos muito mais do que apenas nos sentir desejada, queremos que seja bom, queremos o desejo e o prazer e não só simplesmente dar…, só uma ressalva nós olhamos e também comparamos, afinal é para isso que servem as famosas rodas femininas forjadas nos banheiros, mesas de bar, shopping, praia e salas de aula.

Me perguntei durante um bom tempo o motivo de cinquenta tons de cinza fazer tanto sucesso entre as mulheres, eu sinceramente não sei, já li livros mais interessantes, e que fique claro eu não li cinquenta tons, eu não consegui passar da página 15, gosto realmente é algo indiscutível.

A liberdade sexual feminina, a liberdade feminina no geral, foi algo que ocorreu muito recentemente, quem éramos nós para falar de sexo? Meros objetos que apenas davam prazer, que não recebiam e nem sentiam…, para mim esse é o X do sucesso de vendas, não que o livro seja bom, mas sim o fato dele ser escrito por uma mulher para mulheres, uma escrita que fez milhares de mulheres falarem indiretamente ou diretamente aos seus parceiros que não estavam satisfeitas na cama, que os gritos na hora H na verdade não existiam, que elas queriam inovar outras posições, que existiam outras formas de se fazer sexo oral que não fosse ela nele e sim ele nela. Eu particularmente faria o querido e problemático Gray, sentar no meu divã para curar o seu egocentrismo, obsessão e o machismo, mas não estamos falando dele no momento e sim no fato dele proporcionar prazer, a problemática, submissa e dependente Anastácia.

Como puderam perceber não sou muito fã do livro, na verdade a literatura erótica, e até mesmo na não erótica, no geral faz de nós mulheres objetos de prazer, algo a ser consumido e domesticado, algo frágil e que merece ser protegida a personagem principal que na verdade é mera figurante faz suas ações girarem entorno do galã másculo e viril, olhando por uma ótica generalizadora acaba por fazer o mesmo que o mercado de consumo nos vende a ideia de mulheres sem alma, prontas para o abate, mulheres perfeitas e quebráveis, mulheres de plástico sem desejo ou vontades, mulheres de papel completamente moldáveis.

Acho que vocês vão gostar de saber que estou sentada escrevendo esse texto completamente despenteada, pensando na garrafa de coca cola e na rabanada absolutamente gordurosa na geladeira, Minhas unhas pela metade do esmalte, e o lápis de olho borrado. Quem liga para isso afinal? E daí se estou assim? Meus pais sempre me dizem que se é para me arrumar que seja por mim e não por outros, acho que estou seguindo esse conselho…

Texto de Juliana Marques (publicado Originalmente no dia 31/08/2015)

 

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