Keep Calm é só o ENEM! (Ou será que é a vida?)

KEEP

Sobre o ENEM: Sim, estou muito feliz com o fato do ENEM fazer jus ao rótulo de Exame Nacional de Ensino Médio, e de fato ir além das questões programadas que os cursinhos e algumas escolas se propõem a ‘’ensinar’’, mas eu continuo achando esse sistema de avaliação deverás arcaico, não por privilegiar uns e outros, até porque o ENEM é baseado em currículo Nacional, mas eu não acredito em um sistema de avaliação que te ponha a prova durante dois dias, em meio ao seu nervosismo e as insistentes crises de TDAH, preferia em uma ideia utópica ser avaliada por minhas competências, assim seria mais fácil e justo.

Mas falemos das questões do ENEM, teóricos conceituados, FREIRE, MARX, Beauvoir, e um monte de outras pessoas que tentaram mudar o mundo, história e geografia aplicada de maneira social e cultural, segundo relatos as questões de português também estavam trabalhadas na amorosidade, nas variações linguísticas e bem a provas de ciências exatas era a prova de ciências exatas.

O que eu quero dizer é o seguinte tanto se foi comemorado durante o dia sobre tudo isso, sobre esses pensamentos, sobre esses autores, sobre tudo, que uma questão pairou em minha cabeça o dia inteiro, esses autores são trabalhados da forma que se devem ser trabalhados com os alunos em sala? Eles são ensinados a refletir sobre esses assuntos? E se eles que tanto quiseram quebrar o sistema estavam sendo usados a favor do sistema eles estavam agora excluindo?

Eu realmente fiquei feliz pelo ENEM fazer jus a uma formação Humana, que aliás se faz presente com a obrigatoriedade do ensino de sociologia e filosofia, mas a questão é: Mesmo que as ideias mais contemporâneas sobre igualdade de direitos tenham sido expostas nessa prova, na prova anterior (2014) e nas demais (que vão vir e já vieram), isso não vai significar nada se a formação de alunos e professores continuar a ser uma formação que valorize a reprodução, a programação e a desigualdade, onde a lógica da exclusão se faz presente em um exame que deveria incluir, afinal quantas escolas entre públicas e particulares se preocupam realmente com isso??? Quantas escolas ouvem seus alunos??? Quantas escolas de fato fazem o que é proposto pelas Diretrizes???

Entre os milhares de comentários de comemoração pelos temas propostos ouso a falar que o barulho foi feito sem reflexão alguma, é fácil falar do que é machismo, violência, exclusão do lugar onde estou, acabei a faculdade de pedagogia, minha formação é em humanas e digo com clareza que as crianças que prestaram esse vestibular em sua maioria não tomaram ciência política da metade das questões naquela prova. Sim, eu os chamei de crianças, cada dia mais cedo eles prestam vestibular, se preparam para um mercado de trabalho no jardim de infância enquanto aprendem o terceiro idioma, mas isso é um outro texto.

Chega a ser engraçado em meio a um dia em que uma prova e sua redação pro vestibular causou tanto rebuliço uma pequena reportagem do Fantástico chamar atenção justamente pela controvérsia, um dos quadros, intitulado ‘’o grande plano’’ com a presença de três artistas acima de sessenta ( Berta, Vilma e Elke), a participante a pedido do marido teria que mudar seu estilo de se vestir por causa do marido, ele achava suas roupas apertadas, curtas e transparentes, e as três senhoras concordaram, em meio a uma grande discussão sobre direitos das mulheres ideias tão ultrapassadas se fazem presente, ‘’o que as pessoas vão pensar’’, as pessoas não deveriam pensar nada, o corpo é dela, a vida é dela, ela se veste como ela quiser e ninguém tem o direito de falar algo sobre isso.

Vivemos em um mundo onde o machismo se encontra tão impregnado que não conseguimos nunca achar a raiz do problema, o tamanho da roupa, a cor do batom, o solto, a falta de pintura, pequenas ações, detalhes que são nos impostos todos os dias como forma de controlar nosso corpo, não somos objetos, somos mulheres.

Deixo aqui a minha reflexão sobre esse ENEM, talvez essa seja a pequena revolução que começou no lugar mais improvável para que futuramente os vestibulandos não precisem decorar formulas e formulas em meio a um desespero para passar no vestibular. Quem sabe seja essa a hora de refletir sobre o que é ensinado nas escolas desse país?

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas

Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas

(Chico Buarque)

Texto de Juliana Marques (publicado no dia 26/10/2015)

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