Que Mimi é esse Dona Isabel?

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Dona Isabel que história é essa de ter feito abolição,
De ser princesa boazinha que libertou a escravidão
Tô cansado de conversa, tô cansado de ilusão
Abolição se fez com sangue que inundava este país
Que o negro transformou em luta cansado de ser infeliz
(Mestre Toni Vargas)

Amados Leitores, voltei após o carnaval e aniversário sobrevivi a ambos e continuarei tentando sobreviver até segunda feira, mas vamos ao assunto.

Tive muitas inspirações para esse texto uma delas meu próprio grupo de amigos que desconheciam haver racismo, que atos de racismo são só um grande mimi e que adivinhem só, de acordo com eles as oportunidades são as mesmas para todos, conseguir ou não algo vai depender da força de vontade da pessoa, afinal ano passado tivemos aquele senhor que concluiu a faculdade de direito com mais de cinquenta anos pedalando de bicicleta todos os dias… (HAHAHA senta lá Cláudia!)

Grande exemplo com toda certeza, mas o interessante a se pensar é porque esse senhor só voltou a estudar depois de tanto tempo? Pobre, negro, pedalando quilômetros com uma bicicleta… Qual o motivo dele ter abandonado os estudos? As oportunidades são as mesmas para todos? Porque ele só voltou agora e porque mesmo com essa idade avançada ele continuou trabalhando como pedreiro, pedalando ao invés de viajar de ônibus? Amados se vocês acham que isso é mimi, é bom parar a leitura por aqui!

É inevitável olhar para a rede pública de ensino dos grandes centros urbanos, no meio das grandes favelas é caracteriza-la como um lugar de gente pobre e/ou negra, é interessante você vê uma constante de pessoas com menos de 18 anos tendo que trabalhar para alcançar sua liberdade, para ajudar em casa, para ter o que nunca possuiu… Algumas dessas pessoas em algum momento de suas vidas vão optar pelo trabalho aos estudos, vão estudar a noite, vão chegar atrasados, vão dormir no último tempo e reprovar nos primeiros… Igualdade…?

Quando essas pessoas alcançarem a Universidade vão perceber que a Universidade Pública não é para pessoas pobres, não, realmente não é. Professores inflexíveis que se acham os reis por terem um Concurso Público, um horário que mesmo não sendo integral se torna integral, e coleguinhas de outros cursos que se acham superiores a você só por não possuírem cota, por não precisarem trabalhar para se sustentar e muito menos enfrentar o transporte público para se chegar a Universidade e consequentemente não contar as moedas.

Não, eu não era cotista, levei marmita, contei moeda, repeti a roupa, não comprei a xerox, já pensaram que eu fosse, digo com muito orgulho que se eu fosse seria muito feliz, alguém tem noção de quão difícil é passar por cota? É, é muito difícil, fora o fato de você conseguir manter o lindo benefício que não dá para nada no fim no mês. Minha total admiração aos cotistas que por muitos anos foram e são melhores que muitos não cotistas… Digo mais, o número de Cotas não sustenta o número de gente que precisa dela em uma Universidade Pública…

Refletindo aqui sobre todo esse mimi que me acusam, percebo que boa parte das minhas amigas não me consideram negra…, meio difícil eu sei, mas quem não se lembra do caso da ex-Globeleza Nayara Justino, a acusaram de ser negra demais para o padrão estético da Globeleza (UAI????), a mulher foi substituída do nada. E aí eu percebo pela segunda vez o quão o FDP é o Racismo, nós negros não nos consideramos negros no Brasil porque sentimos medo da repressão que o “ser negro” representa e por vezes denominações como, moreninha, mulata, morena, são melhores do que se ouvir falar que é negra…

Para não esquecer galera sou contra a Globeleza e toda a ideia da erotização do corpo da mulher negra, principalmente no carnaval, comerciais de cerveja com toda aquela ideia do corpo do pecado, pouca roupa, quero descobrir porque nesses momentos não vejo a coleguinha loira, alta e branca? Sem falar claro nas fantasias sem noção de Nega Maluca, a história em torno de tal fantasia é que ela era uma escrava que foi abusada e engravidou do rapaz branco, cara isso não é engraçado é cruel, é abusivo, é machismo a mulher não era maluca…

Eu me considero negra, meu pai é negro, meu avô era negro e por ter a pele um tom mais claro que a deles, muitas das amigas me acham “morena” e por eu ser “morena” admito que tenho certos privilégios que nem meu pai e nem meu avô tiveram, sou consciente disso pois já cansei de ter que sair do carro do meu pai para revistarem, da última vez rolou até uma ameaça com arma… Uma arma a menos ou a mais quem liga? (é só mimi galera, vitimismo!)

Preta, pobre e favelada é assim que eu me considero, mesmo com o privilégio (perante a sociedade) de eu nascer com um tom de pele mais claro (“moreninha”) eu sou constantemente vigiada quando vou a shoppings na Zona Sul, lá eu não tenho privilégios, eu sou negra (sério, mesmo?), minha roupa não é de marca, meu sapado não é importado, meu óculos de sol é da SAARA e bem meu Cabelo é meu Cabelo livre, leve e cheio, lá eu sou negra, pobre e favelada e em alguns momentos descabelada.

Um dos detalhes que eu constantemente toco no assunto é que eu sou Pedagoga, recém formada, e isso me permite ver por muitos ângulos uma mesma situação, eu tinha uma amiga que fazia estágio em um renomado colégio da Zona Sul do Rio, ela é negra e em um determinado momento do estágio ela trançou os cabelos, adivinhem o que aconteceu? Sim começaram a reclamar disso, (reclamaram do Black também)… Mas gente é só um cabelo… Um cabelo que para muitos é simbolismo da resistência, da cultura, da sobrevivência de uma raiz… Dou um doce para quem adivinhar se o quantitativo de crianças negras nessa escola era proporcional? Não, não era, aliás nem na escola que eu fiz estágio na Tijuca, (Considerada alternativa!) mas fato é que algumas dessas crianças não se identificavam com o cabelo da minha amiga e achavam o próprio cabelo feio.

Vou aproveitar todo esse papo com a escola e vou falar sobre um assunto que essa semana me teve entalado na garganta…

Deparei-me com aquela imagem do menino negro vestido de Abu (o macaco de Aladim) demorei bastante tempo para conseguir assimilar o acontecimento, confesso meus sentimentos foram deverás ambíguos, de acordo com os pais não foi intencional e não iriam expor a criança a isso. Fato é que tal foto gerou polêmica principalmente pelo fato da criança ser adotada, e eu de verdade prefiro acreditar no amor desses pais que não se identificaram com as lutas que futuramente seu filho enfrentará apenas por ser negro. (APENAS!)

Que o diga Kaike Pereira de 13 anos, ator da Rede Record!

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Mas vamos debater esse assunto de forma social? Uma criança negra vestida de macaco? Meus amores o macaco poderia até ser o King Kong ainda assim em uma sociedade como a nossa isso é racismo sim! Crianças negras independente da classe social são constantemente chamadas de Macacas, nós vivemos em uma sociedade que faz questão de lembrar que os negros descendem de escravos e que faz questão de dizer que por esse fato merecem estar subjugados aos piores empregos, as piores condições, aos piores tratamentos, por esse fato merecem continuar na senzala, na cozinha da casa grande cuidando dos filhos dos patrões. Muita gente prefere se esconder atrás do rótulo de morena, parda, mulata pelo simples fato de não quererem estar subjugados ao estigma social que o branco impôs ao ser negro.

Não se conta toda a história de quando foram escravizados, retirados de suas casas, de quando arrancaram seus filhos dos braços, destituíram seus líderes, queimaram suas lembranças, mataram seus homens, abusaram de suas filhas e mulheres… Os Deuses, a Cultura os sonhos foram esquecidos, aniquilados e convertidos no que o Ocidente chama de pecado, misticismo, crença!

O menino em questão foi adotado por um casal de poses, vai morar em um bairro legal e conforme for crescendo vai perceber que o fato de ele ter sido adotado por um casal branco não o protegeu dos desatinos da vida, ele não é branco, ele é um negro em um local de branco e constantemente vai ser encarado como o “coitadinho que foi adotado” e/ou “eterno menor abandonado”…, vai enfrentar os coleguinhas brancos na escola que o consideram diferente, vai vê aquela foto sua da infância vestido de Abu sendo usada como justificativa para os xingamentos, não vai se identificar com seu cabelo, com sua cor e vai crescer sobre constantes olhares estigmatizadores, principalmente quando começar a frequentar os lugares chiques da Zona Sul ou encarar a polícia subversiva que aponta a arma, bate e depois pergunta.

Vivemos em um país que diz que “o Racismo está nos olhos de quem vê”, “O mundo tá chato”, “se a criança fosse branca não teria esse problema” “isso é drama é se fazer de coitado”… E esse é o grande Xis da questão, a criança branca não vai crescer estereotipada com milhares de preconceitos e olhares tortos em sua direção enquanto entrar em uma loja, a criança branca não vai ser chamada de macaca pela simples comparação de sua cor, com atos referentes a líderes religiosos que diziam na época da escravidão que negros eram animais e não tinham alma.

Que fique bem claro caro leitor, se vocês acham que só porque uma pessoa é de classe média ou da rica, milionária, ela não irá sofrer preconceito, não eu não digo isso, isso é uma inverdade… A prova disso são os Artistas globais nacionais e internacionais que vira e mexe são vítimas de injúrias raciais, a prova disso são os pesquisadores negros que são constantemente barrados nos eventos em que são palestrantes. A prova disso são aos donos de carros, de prédios, de lugares que são confundidos ou com o motorista, com o vendedor ou com o assaltante, A prova disso são os moradores dos condomínios de dois elevadores (o de serviço e o convencional) que constantemente recebem um olhar devastador, aquele olhar, de que o lugar deles não é ali, não é naquele elevador, naquele condomínio, naquele bairro, naquele carro, naquela novela, naquela universidade….

É e se no fim você continuar vendo tudo como um grande MIMI de gente que só que se vitimizar, seja feliz pois você é um grande privilegiado socialmente!

(Texto bisoiado pela Alyne Ferreira, a amiga das trancinhas que eu citei!)

Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo?

Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele a tal ponto que você alveja para ficar mais branco.

Quem te ensinou a odiar a forma do seu nariz e lábios?

Quem te ensinou a odiar você mesmo da cabeça aos pés?

Quem te ensinou a odiar os seus iguais?

Quem te ensinou a odiar a sua raça tanto que vocês não querem estar perto uns dos outros?

É bom que você começar a se perguntar quem te ensinou a odiar o que Deus te deu.”

 – Malcolm X – Por qualquer meio necessário.

Texto de Juliana Marques postado em 15/02/2016

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