Entre amores e egoísmo.

soneto[1]
Soneto de Fidelidade – Vinícius de Moraes

Eu já dissertei mais de uma vez a respeito da minha minha capacidade de “supostamente” amar demais, resumindo eu não consigo desenvolver um relacionamento sério com quase ninguém pelo simples fato de não conseguir me ver amando uma pessoa minha vida inteira. Sim, esse é o mesmo problema quando penso em concursos públicos e na possibilidade de me ver prisioneira de um mesmo emprego por longos anos da minha vida. Deve ser por isso que penso tanto em tantas coisas diferentes para fazer.

Eu sempre fico muito aflita quando penso na minha poligamia, eu amo muitas pessoas, eu amo muitas profissões, eu amo de muitas formas, eu amo de forma errada muitas coisas, eu tenho muitos medos com relação ao futuro, meus medos consequentemente me fazem errar muito. Eu sempre me pego pensando quando digo que minha vida é uma eterna relação de poligamia, eu de fato preferiria mil vezes ser monogâmica não só com relação a afetividade mas com relação a vida profissional.

A vida seria bem mais fácil se todos fossem formatados na mesma forma, olha que chato e interessante, ao menos ninguém te julgaria pelas supostas escolhas que você não teve escolha, pelas orientação pré estabelecidas antes do meu nascimento, pelos gostos duvidosos em relação aos meus amores.

“Que seja eterno enquanto dure”, essa frase tá tatuada no meu coração, não aquele que bate mas o que ama, o que ama desesperadamente cada coisa e depois “desama” com a mesma intensidade. Eu sinto amor, e amo o sentir, eu amo cada peça dessa composição esquizofrênica do meu coração, mas queria não amar, veja bem toda vez que escolhemos entre uma coisa e outra nós impusemos nossos sentimentos pessoais acima de qualquer coisa, nós fazemos algo egoísta.

Ser egoísta não é pensar em si, é pensar em si acima do outro. O quão egoísta eu sou? Eu torno meus relacionamentos abertos por medo de não amar eternamente uma única pessoa, ou melhor, por medo de protagonizar a famosa cena de filme em que “a mocinha se vê apaixonada pelo vizinho e abandona a parceira de anos por quem se apaixonou perdidamente enquanto estava noiva do namorado de infância”, difícil? Nem tanto.

Sejamos sinceros eu não me sinto confortável com a estabilidade de um relacionamento, então eu o abro prevendo a possível outra pessoa invadindo minha vida, quase sempre acontece, as vezes não comigo, mas é a vida…, e eu no fim das contas tenho total direito de não me sentir completa estando com uma única pessoa.

Uma das coisas mais engraçadas quando se é naturalmente poligâmica é que quando você entra em um “suposto” relacionamento aberto com uma outra pessoa, você se torna uma certa referencia de um relacionamento opressor, principalmente se o relacionamento seguir a heteronormatividade e você for a mulher, é claro que se descobrirem que você é percursora da ideia do “relacionamento aberto”, você será promovida de submissa à puta. Um brinde a nossa sociedade machista.

Minha ideia de relacionamento poligâmico ideal é eu e a outra pessoa nos apaixonarmos igualmente pela terceira pessoa, utopia? Quem sabe…

Relacionamentos monogâmicos podem ser bem opressores e bem machistas tanto quanto qualquer relação de poligamia, nossa sociedade nos prova isso nos discursos do golpista, mulheres só servem para a economia quando verificam os preços no supermercado. Uma mulher não pode ter mais de um parceiro, ganhar mais, decidir sobre o próprio corpo, querer trabalhar tendo um filho, não pode querer terminar o relacionamento, decidir a própria carreira, uma mulher não pode saber sobre números, não pode comandar, não pode ser presidente, uma mulher tem que seguir um parâmetro para ser uma mulher.

E sim, eu tenho a certeza que boa parte das mulheres já sentiram seus desejos castrados por boa parte de seus parceiros, não na cama enquanto ele se negava a fazer um oral, ou enquanto ela emitia um falso gemido porque o pinto torto dele não atingia o local certo, estou me referindo a uma coisa bem mais simples na verdade, sentir desejo por outros corpos e não poder falar, pelo simples fato de que a sociedade nos diz que mulheres não sentem desejos por outros homens que não são seus parceiros, aliás a sociedade nos diz que se não sentimos desejos na relação a culpa é nossa e não dele.

Calma aí sociedade, se eles se sentem atraídos por outros corpos eu também posso me sentir atraída!

Mas tecnicamente falando, eu sou contra traição, e é por esse fato que eu sempre termino algo antes mesmo de começar, a simples ideia de que um outro corpo, uma outra composição de corpo e alma esta me atraindo me faz sentir culpada, mesmo que o desejo não legitime o ato.

Resumidamente falando, existem várias formas de relacionamentos poligâmicos, os mais conhecidos são: A terceira pessoa, em que a terceira pessoa se relaciona com ambos; o que cada um tem um parceiro e as vezes eles se encontram em uma suruba, temos o que eu o que eu mais entro mais sou reticente, que é o famoso relacionamento aberto, “eu te amo, mas pego outras pessoas”, e claro temos o que o querido macho alfa tem suas várias mulheres, vugo nosso querido Catra, queria eu ter vários maridos com tanto acolhimento pela sociedade.

Existem várias formas de se iniciar um relacionamento poligâmico com uma outra pessoa, mas a forma mais errada é impondo isso a alguém que não quer um relacionamento dentro desse parâmetro, e isso é um egoísmo, é a imposição do seu bem estar, sem preservar o bem estar do outro.

Não se impõe nada a uma outra pessoa, a pessoa tem que querer estar nessa relação, e principalmente se sentir desejada e desejar dentro dessa relação, e se a relação é aberta, todos os dois têm os mesmos direitos, a sua liberdade não pode castrar a liberdade de uma outra pessoa, não pode castrar os sentimentos. E é bem nesse ponto em que finalmente chegamos, qual o significado de “abrir um relacionamento”, serei sincera eu sinto muito preguiça para sair por aí beijando bocas durante a balada, então abrir o meu relacionamento só significa para mim me relacionar com uma outra pessoa que me atraía em todos os sentidos, mas para outra pessoa abrir o relacionamento pode significar a reafirmação do ego, “quero um compromisso, mas quero continuar com minha vida de solteiro”, abrir um relacionamento tem tantos significados mas a maioria deles é focada só no “eu”, “eu não consigo amar só uma pessoa”, “eu não sou feliz em uma vida a dois”, “eu não quero me prender a uma única pessoa”. É tanto “eu” sem “nós”, que nos esquecemos de um erro que é irreparável, sozinho nenhuma relação existe.

Estar em um relacionamento monogâmico ou poligâmico, não tem nada relacionado com ser ou não egoísta. Tudo bem se a pessoa for uma pessoa que gosta de compartilhar isso ajuda bastante em um relacionamento poligâmico, o que não a impede de ter comportamentos obsessivos. Cada pessoa é de um jeito, cada pessoa tem sua forma de amar, e essa forma é algo único que é incapaz de se descrever, o fato de você estar em uma relação poligâmica não quer dizer que você não sinta ciúme, que você não sinta, que você não ame, que você não impeça suas ações para ver a felicidade de outra pessoa. O fato de você se encontrar em um relacionamento monogâmico não te impede de não sentir, de não se sentir, de amar desesperadamente, de se sentir insegura.

Se sua relação não te faz feliz, você simplesmente não vive uma relação, vive algo condicionado, muito parecido com uma prisão sem grades.

Quando amamos inegavelmente flertamos com a insegurança, porque se uma pessoa ama automaticamente ela quer ser correspondida com a mesma intensidade, só que pessoas adultas sabem que o mundo adora quebrar nossas expectativas. Exitem tantas formas de amar que seria impossível realmente as descrever, se você ama a dois, a três, a quatro, se você ama, se ama e é amado é tudo que deveria ser importante. 

Compositor de destinos

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Disponível em Pinterest

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

(Caetano Veloso)

Dedico esse texto aos meus amigos, irmãos, por me ensinarem que viver é florescer entre a tempestade. Dedico esse texto aos amores incondicionais que conjugam o verbo amar da maneira mais intensa possível. Eu amo vocês por me ensinarem tanto de tantas formas.

Em meio a aquele silêncio, ouvia-se um choro,

tão íntimo,

tão pequeno,

tão vulnerável,

Era o primeiro encontro de ambos, seu olhar o encontrou de forma que soubesse que mesmo naquele primeiro momento, aprenderia bem mais do que o ensinaria.

Sorriu, sorriu de maneira tão inusitada ao o segurar, que se esqueceu de como estava sensível, não ligou, continuou a segura-lo de maneira meio torta, meio incerta, de maneira certa, bem ao lado do seu coração, o som estranhamente descompensado acalmava aquele ser tão pequeno, o choro cessava enquanto seguia o embalo daquela voz rouca e dos soluços.

O ninou em seus braços, com toda a experiência que lhe faltava.

Se perguntou desde quando o conhecia? O olhou novamente como se tentasse se lembrar, fechou os olhos e sentiu aquele cheiro meio seu, meio dele, era algo tão improvável, mas sentia, era como se reconhecer ali. Não, com toda certeza não era o primeiro encontro de ambos, soube disso quando o tiraram de seus braços pela primeira vez, sabia que não existia lugar melhor do que ali nos seus braços, e mesmo assim o levaram.

Sentiu o aperto, e reconheceu a saudade imensurável que nunca havia sentido.

Dormiu de cansaço, mesmo não querendo dormir.

Se preocupou, mesmo sabendo que não deveria se preocupar.

Disse que estava tudo bem, apenas para que se preocupassem com ele e não com si.

Por mais que soubesse o que era amar o outro, não sabia descrever aquela sensação, não era racional, era como se a sua dor não existisse, então soube o que era verdadeiramente se doar pelo outro, sentiu necessidade de protege-lo, de o guardar em seus braços, aprendeu um outro significado de amar, bem mais intenso, bem mais voraz, um amor incondicional e sem respostas.

Quando acordou não se importou com as olheiras, ou com qualquer coisa que foi lhe perguntado, esperou ansiosamente para o encontrar novamente, ainda não sabia lidar com tudo aquilo, era tudo meio novo, e nada correspondia a suas expectativas, era tudo mais intenso, antes mesmo de o acolher em seus braços já sentia seu calor tão peculiar.

Independente de todas as crenças que poderia ter, sabia que daquele momento em diante todas as suas preces seriam para ele, para seus sorrisos, para seus machucados, para seus sonhos, para seus abraços.

O alimentar era como regar um pequeno broto, sorria com esse leve pensamento, era como se aquilo os ligasse eternamente, era como se sua vida regasse aquele ser tão pequenino, enquanto ele despreocupadamente sugava cada gota. Não conseguia pensar em mais nada enquanto o encarava.

Era o seu pequeno pedaço do mundo, era o seu mundo, nunca o imaginou tão pequeno, nunca imaginou que algo tão grande pudesse caber nos seus braços, mas cabia, sabia que não caberia para sempre e inquestionavelmente sentiu um súbito medo dos dias tão distantes em que não bastaria o seu amor, seus braços, suas palavras, respirou fundo e ignorou todos esses pensamentos, por enquanto ele ainda era o seu pequeno pedaço do mundo, tão pequeno que cabia nos seus braços.

Se pegou rindo para o nada, respondendo perguntas inexistentes, inventando músicas sem refrão, era tudo tão único que nem ligava para que os outros diziam, nem todos os manuais de instruções poderiam sugerir como seria seus dias agora.

O cansaço batia, o choro surgia, e o único verbo que conseguia conjugar era o amar, o conjugava das maneiras mais improváveis e impossíveis.

Meu canto hoje dobra as tuas notas
Me olhas como se fosse normal
Me coro ao seguir a tua rota
Meu abraço te amarrota
Meu estranho natural

_Maria Gadú_

Yuri!!! On Ice: Papo de adulto!

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There’ll be no more darkness when you believe in

Yourself you are unstoppable

Where your destiny lies, dancing on the blades

You set my heart on fire!

(History Maker/ Yuri!! On Ice)

Resolvi ceder aos meus clamores adolescentes, assisti entre ontem e hoje a série Japonesa Yuri!!! On Ice, produzida pelo estúdio MAPPA, realizada por Sayo Yamamoto e escrita por Mitsurō Kubo, desenhada por Tadashi Hiramatsu, banda sonora foi composta por Taro Umebayashi e Taku Matsushiba e coreografia criada pelo patinador Kenji Miyamoto.

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Sinopse: A história revolve à volta de Yūri Katsuki, que carregou nos ombros a esperança de todo o Japão para vencer na competição de patinagem em gelo, Gran Prix Finale, mas sofreu uma esmagadora derrota. Ele regressa ao seu lar em Kyushu e parte de si sente que se deve retirar, enquanto que outra parte sente que deve prosseguir com a patinagem. Com esta dualidade de sentimentos a debater-se dentro de si, ele confina-se na casa dos seus pais. Subitamente, o patinador de gelo Victor Nikiforov, 5-vezes consecutivas vencedor do campeonato do mundo, aparece à sua frente acompanhado por Yuri Plisetsky, um jovem patinador artístico Russo que já está a derrotar os seus seniores. Victor e ambos os Yuris abraçam o desafio de uma série Grand Prix sem precedentes.

Vocês já se imaginaram duvidando de si mesmo? Sabe aquele conflito interno, em que não se sabe qual o motivo de continuar, em que se perde em meio as palavras, que quer ser esconder, que quer se superar, que acha que não tem mais objetivos? Esse anime trata basicamente de todos esses sentimentos, cada personagem tem seu papel e é como se cada um desses personagens, fosse um pouco parte de nós, em momentos diversificados.

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A insegurança de Yuri Katsuki, por estar praticamente no meio da sua carreira, aos 23 anos, onde é o melhor do mundo no seu país, mas não se considera bom o suficiente para continuar, a insegurança dele pode ser considerada nossa própria insegurança, afinal quantas vezes já nos olhamos no espelho e mesmo com todos dizendo que éramos bons não acreditávamos, não tínhamos um objetivo. Não conseguíamos entender que errar faz parte de quem nós somos, e que isso não nos torna pior ou melhor. Yuri!!! On Ice, não é sobre um “personagem fracassado que encontra a salvação”, não, longe disso, é sobre um personagem com vitórias que não as reconhece e que se pune (fisicamente e psicologicamente) por seus erros.

Yuri Katsuki, não acredita em si mesmo, tem medo de se expor e fica nervoso diante a expectativas, tudo que ele quer é que acreditem nele, que Victor acredite dele, que as outras pessoas acreditem nele, sem perceber que ele próprio não acreditava em si.

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O pequeno Yuri Plisetsky, representa nossos desafios, o atleta de 15 anos que ama a voracidade de se patinar, e que quer se mostrar o melhor, não, ele não quer ser só o melhor, ele quer desafiar os melhores, ele quer mostrar que é muito além de uma criança de 15 anos, é aposto que aos quinze você também foi assim, quis devorar o mundo com a mesma velocidade que o descobria,  não se importava quando caia, não se importava com os erros, mas se importava com os que os outros pensavam, Yuri ou Yurio (apelido adquiro no Japão), não queria ser vê como o segundo, ele queria vencer o primeiro, queria incentivar, ele queria não só a sua superação pessoal ele queria que os outros se superassem, ele gostava de desafios, é assim nessa briga interna entre a rebeldia planejada e a infantilidade que crescemos.

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Finalmente temos Victor Nikiforov, o Jovem de 27 anos que é um aclamado campeão sem objetivos, é meio assim que nos sentimos as vezes, parece que já conquistamos tudo, e o tudo não é suficiente, nem para nós mesmos, o atleta perfeito, que quase não viveu a vida, ele resolveu parar, assim como Gabrielle Douglas a campeã olímpica que resolveu pausar a carreira e refletir sobre a vida. Muita gente não entende, mas para esses atletas a separação de quem eles são dentro e fora do esporte, é praticamente algo inexistente durante a carreira ativa. Victor é um personagem real, reflexivo, e expressivo, ele tem suas frustrações, seus desafios, ele busca um novo objetivo para voltar a amar aquilo que fez/faz parte dele.

Quando Victor assiste ao vídeo de Yuri fazendo uso de sua coreografia, ele passa a ter aquele rapaz como seu objetivo, não no sentido romântico, mas sim no profissional, se ele inspirava alguém, ele também queria ser inspirado por essa pessoa. Ele voou ao Japão, e se dispôs a ser o treinador de Yuri. Ele serviu como ancora para Yuri entender que ele era bom o fez perceber que ele não estava sozinho, nunca esteve, nunca foi só ele e para essas pessoas, ele sempre seria um vencedor independente do resultado.

Yuri!!! On Ice, vai muito além das expectativas de uma série de esportes toda trabalhada no Yaoi, sim é uma série de Yaoi, onde os personagens tem um relacionamento afetivo nítido, mais que não é declarado explicitamente, onde inclusive existe uma cena ambígua de um beijo entre Yuri e Victor em que se é questionado “é beijo ou não é? ”.

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Mas afinal de contas o que de fato importaria se Yuri e Victor tivessem um relacionamento muito além da condição de Técnico e aprendiz, muito além da relação de amizade?

Talvez toda essa ambiguidade tenha alguma relação com o fato do então presidente Russo, Vladimir Putin, em 2014, ter sancionado uma lei de proibição da “propaganda de relações sexuais não tradicionais para menores”, aprovada por praticamente todo um parlamento e sociedade. Era o ano dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi (Rússia), o cenário era nada acolhedor a pessoas da comunidade LGBT, o que antes já era ruim, só piorou com a lei, como foi explicitado no documentário, To Russia with Love (2014), pessoas sumiram, morreram, foram presas por defenderem os direitos cerceados de outras pessoas.

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Deixo claro que as manifestações na Rússia, têm que ser aceitas pelo governo previamente, por isso muita gente foi pressa nessas manifestações, mas vamos deixar claro o quão contraditório é lutar pelos direitos em um país em que o governo tem que assinar um atestado de manifestação contra ele próprio.

Como vocês já devem ter pensado sim houve-se protestos por parte dos atletas, por parte de familiares e por parte de uma comunidade que não se importa com a orientação sexual das pessoas, mas ocorreu-se também punições para alguns desses. Ser gay na Rússia nunca foi uma coisa fácil, a tal lei proíbe a veiculação de propaganda a menores de idade, mas isso não é tão menos pior assim, afinal:

De acordo com uma pesquisa do Centro Levada em fevereiro de 2013 (antes da aprovação da lei) em 45 regiões da Rússia, 4% dos respondentes têm uma atitude positiva em relação aos homossexuais, 23% diz ser indiferente, 18% mostra desconfiança, 50% expressa irritação e repulsa. Um total de 85% é contra os casamentos de pessoas do mesmo sexo e de paradas gay; 80% são contra a adoção de crianças por casais homossexuais.

Houve-se no meio disso tudo a galera que só queria competir, que queria não correr riscos, mas também se tornar um marco pelos direitos da comunidade LGBT, é injusto julgarmos quando não sabemos o que eles passaram para se chegar ali, confuso né, mas “assim caminha a humanidade”:

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Ter como um dos personagens principais um Campeão de Patinação um Russo, que explicitamente demonstra uma relação um tanto quanto mais afetuosa com o personagem Yūri Katsuki, é no mínimo uma resposta mesmo que tardia a essa situação, se pensarmos bem, qual o motivo do relacionamento de ambos os personagens não poder dar certo? Dois adultos cuja diferença de idade é 4 anos, livres, que sabem o que querem da vida, que lutam por seus sonhos e que nitidamente se gostam, qual o motivo de não poderem ficar juntos?

Yuri!!! On Ice, trata das relações humanas, dos sentimentos, dos medos, das expectativas e de uma realidade que é nitidamente tratada nas coreografias fascinantes dos personagens, elogiada por atletas reais, trata-se de viver e amar e ser feliz fazendo isso, quão real seria se esse romance fosse explícito?

Nos momentos de reflexão do personagem Victor, é sempre possível por mais que o ar de descontração se faça presente uma melancolia, uma vida inteira dedicada a um esporte, ele só era aquilo e aquilo bastava? Qual o objetivo? E a principal das reflexões é a que ele fala, que no momento que ele deixou de ser o patinador ele passou a viver livremente como não fazia a muito tempo, se tornou tão livre que ao ser superado finalmente sentiu vontade de se superar de superar seus pupilos, sentiu a felicidade de ver dois Yuris o superando, e sentiu o desejo de fazer aquilo que tanto amava para poder os superar, talvez esse seja o sentimento de gratidão tão presente no anime.

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Quantos atletas que dedicaram uma vida inteira a um esporte vocês conhecem que assumiram publicamente sua orientação sexual? Quantos amaram e foram amados e continuaram ganhando medalhas e sendo aplaudidos de pé? Qual é o preço de se viver um sonho? Qual o preço de ser aclamado por um povo e esse povo não reconhecer quem você é? Vocês se lembram que na copa de 2014:

Na primeira vez que a Marselhesa foi entoada na Copa do Brasil, Karim Benzema ficou calado. O artilheiro e principal jogador da seleção francesa escolheu não cantar o hino nacional de seu país em um protesto silencioso contra a xenofobia presente na letra e na sociedade multicultural da França.

Benzema, como milhões de franceses, é filho de imigrantes de uma das colônias que o país teve no século 20, no caso dele, a Argélia. E a letra da Marselhesa diz: “Às armas, cidadãos / formai vossos batalhões / marchemos, marchemos! / Que um sangue impuro / banhe o nosso solo.” (copadomundo.uol.com.br)

É interessante observar justamente que dois anos depois desses dois eventos um anime nos fez refletir mesmo que de maneira tão simplória a respeito desses atos, a crise migratória, pessoas exaltando o nacionalismo e a exclusão, a negação de solidariedade, o avanço das políticas de direitas em diversas partes do mundo, excluir o outro por ser diferente, o fazer não se sentir parte, faze-lo se esconder, talvez realmente devêssemos, ou melhor eu devesse ser grata a esse anime, por cada vírgula que esse anime fez escrever em meio aos pensamentos reflexivos.

Gratidão é uma boa palavra, a decisão de uma única pessoa fez a vida de todos os personagens girarem, quando Victor resolveu seguir seu impulso e se tornar treinador, por causa disso dezenas de fatos aconteceram nos provando mais uma vez o peso de nossas próprias decisões, a minha decisão é de minha responsabilidade mas ela influencia a vida de outras pessoas.

É claro que ainda estamos falando de Animes que tendem a fazerem personagens femininos um tanto quanto superficiais e tolas, que exageram nos peitões, atitudes sentimentais de fato exageradas, e que costumam não dá muita atenção as explicações, então em alguns muitos momentos você vai se sentir realmente em uma competição de patinação no gelo, mas vai ficar igualmente perdido, porque não existe uma explicação sobre ações, escolhas, o telespectador realmente é telespectador, ele vai fechar os olhos e rezar para o personagem não cair, mesmo que não seja o Yuri os olhos fecham, afinal essa é a intenção do anime te fazer sentir como se não fosse um anime.

Talvez a segunda temporada não se torne tão reflexiva quanto a primeira, mas se a primeira me surpreendeu, então porque não acreditar que essa nova temporada também vai trazer novas reflexões, novos sentimentos, novos desafios, talvez seja bom ou talvez os produtores devessem ter terminado a série realmente com o final em aberto, com um final subentendido em que cada um de nós imaginasse um final para os personagens, para o futuro deles.

Referencias utilizadas:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Yuri!!!_on_Ice

http://www.animexis.com.br/2016/07/29/yuri-on-ice-informacoes-e-mes-de-lancamento-do-anime-reveladas/

http://ptanime.com/ficha-tecnica-yuri-on-ice-outono-2016/

http://globoesporte.globo.com/olimpiadas-de-inverno/noticia/2014/01/ex-atleta-gay-enfrenta-fogo-cruzado-ao-ser-contra-boicote-sochi.html

http://www.foxsports.com.br/blogs/view/110325-atleta-gay-nao-vai-voltar-para-o-armario-na-russia

http://deliriumnerd.com/2016/08/01/to-russia-with-love-direitos-lgbt-critica/

http://exame.abril.com.br/mundo/a-homossexualidade-na-russia-nao-e-proibida-diz-putin/

https://br.sputniknews.com/portuguese.ruvr.ru/2014_02_16/os-gays-na-sociedade-russa-total-liberdade-mas-em-privado-7990/

https://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/06/25/artilheiro-da-franca-nao-canta-o-hino-do-pais-em-protesto-contra-xenofobia.htm

Vídeos:

Documentário: To Russia with Love, 2014

Serie de animação: Yuri!!! On Ice, 2016

Pena & Tinta: Entre corpos e purpurina

carnavalEm meio ao confete e a serpentina, ela retocava o batom verde neon na mesa do bar enquanto esperava sua companhia, não acreditava que estava trabalhando no primeiro dia de carnaval, levou mais uma vez a garrafa de água com gás aos lábios enquanto o procurava em meio a toda aquela purpurina, piscou mais de algumas vezes quando viu a camisa colorida e a maquiagem extravagante marcando o rosto, ele estava ali com aquele sorriso sorrateiro puxando a cadeira do bar pois o escritório estava fechado, arqueou a sobrancelha e mostrou as anotações resolveu esquecer a fantasia nada discreta e indecifrável que ele trajava, terminaram a conversa falando de política e do lixo acumulado na cidade, era sempre assim, mas dessa vez era diferente, ela se despediu dele e pediu ajuda para colocar a máscara no rosto, errou o local do beijo, se devoraram ali, ninguém se importou, todos estavam fazendo a mesma coisa.

Ela olhou a hora no relógio dele enquanto tomava o último gole d’agua, ele roubou um beijo novamente enquanto pegava a garrafa e jogava em uma lixeira qualquer, mal perceberam quando já subiam a rua em direção ao apartamento dela, girou a chave rapidamente, fechou a porta e se viu prensada ali, fechou os olhos, ainda conseguia se lembrar da última vez, retirou os botões apressadamente das casas, riu percebendo o péssimo gosto dele, jogou a camisa longe enquanto o puxava pelos cabelos e o mordia, detestou usar um dos seus batons que não eram alta durabilidade, podia perceber as pequenas marcas deixadas em verde neon no corpo alheio.

O arrastou até o quarto e quando percebeu ele havia deixado aquela bermuda por algum canto de sua sala sem ela perceber, sentiu quando desceu o fecho do vestido quase em câmera lenta os olhos dele a devorando vendo o tecido negro cair, o pulou enquanto se livrava do salto e abria o fecho do sutiã, o soltou por qualquer canto, enquanto ele mergulhava entre seus modestos seios, riu vendo que a maquiagem dele era deixada por seu corpo, uma trilha colorida que pintava seu corpo, sentiu a mordida e mordeu seus próprios lábios, abaixou a mão na cueca branca e apertou, o apertou e o sentiu ali, desceu o elástico quase na mesma velocidade em que ela sentia os beijos descendo no seu corpo, ele a ajudou na árdua tarefa de se livrar daquela pequena peça, se viu livre quando ela o apertou mais, ainda estava de calcinha, mas rapidamente não estava mais, sentiu quando ele desenhou com suas mãos seu corpo, enquanto fazia leves cócegas em sua perna esquerda.

Colou seus lábios no dele e sentiu a mão subindo por suas pernas, retirou a máscara e encarou mais uma vez aqueles olhos tão negros, o sorriso de lado que a devorava sem ao menos tocar, sentiu o hálito de hortelã se aproximando, se deitou, ele a acompanhou naquela dança nada planejada, mais um beijo, as mãos já passeavam por seu corpo, sentiu os lábios mergulhando em seu ventre, arqueou o corpo, respirou profundamente quando sentiu um beijo profundo e molhado lhe descendo a virilha, agarrou o emaranhado negro enquanto sorria e esperava impacientemente ele mergulhar furtivamente dentro de si, com sua língua, com seus lábios, com tamanha intimidade, respirou fundo enquanto inalava o cheiro de ambos, fechou os olhos enquanto cravava as curtas unhas no lençóis brancos, mordeu os lábios, e sentiu quando ele a sugou como se sugasse suas forças, sentiu a língua subindo e deixando um rastro delicadamente por cada parte do seu corpo.

Ela o puxou, o puxou com urgência e pelos cabelos, o puxou para selar seus lábios e o devorar sentindo seu próprio gosto, viu o riso frouxo que tanto amava em meio ao colorido da purpurina que enfeitava seus corpos, bagunçou com carinho aqueles fios negros enquanto suas pernas dançavam pelo corpo dele, o pé com as unhas pela metade brincava ali com os pelos de seu abdome, ela sorriu enquanto o fazia deitar para que ela ficasse por cima, talvez aquela natureza tão aquariana não ligasse para o fato de estarem uma hora atrasados para o tal bloco de carnaval, quem liga? Não era da natureza dela ser obrigada a cumprir compromissos, sorriu furtivamente pronta a devora-lo, mordeu os lábios já marcados por seus dentes e pelo resto do batom neon que usava, respirou profundamente ali no pescoço dele, o lambeu arrancando risadas, mergulhou-se ali, marcando-o, suspirou em seus ouvidos e cruzou seu olhar com o dele, não o beijou, não, não ainda, o lambeu em meio  a uma arqueada de sobrancelha e um piscar de olhos, desceu calmamente pelo pescoço, mais um cheiro, dessa vez do lado esquerdo suas mãos se apoiaram na cama enquanto ela se inclinava no peito dele.

Ele a olhava curioso enquanto ela dissipava leves arranhões por seu corpo, retraiu-se, sentiu peito descer no momento em que encostou seus lábios gélidos nos dela, ela o beijou ali, enquanto as mãos brincavam com os pelos do corpo dele, os enrolou nos dedos enquanto devorava o mamilo, mal acreditou quando ela o mordeu bem ali, a olhou incrédulo enquanto a mão descia, ela o mordeu mais uma vez enquanto o segurava, ele arfou, quase perdeu o ar, havia gostado, era diferente, sorriu quando abriu os olhos e a viu descendo por seu corpo nu, deixando marcas vermelhas pinceladas de pigmentosos brilhantes, trilhou até seu pênis já ereto, ela o beijou, enquanto o envolvia com as mãos, o lambeu, ela fez tudo isso o encarando, soltou as mãos enquanto o sugava, o estimulou enquanto apertou a farta carne de sua bunda, doce virilidade masculina, o arranhou ali entre a costela, ele perdia as contas de quantas vezes fechou os olhos se controlando para prender suas mãos no lugar, ele sabia o quanto ela detestava quando puxava seus cabelos, mais era quase inevitável, principalmente quando ele sentia-se tão cheio, iria explodir e tentou alerta-la, ela não ligou, aconteceu ali, e quando percebeu ela o beijava de maneira tão intensa enquanto compartilhavam o seu gosto.

Ela sorriu sorrateiramente enquanto encaminhava seu corpo para o canto da cama e abria a gaveta, ele, admiravelmente puxava a outra mão sugando os dedos dela, apresou-se em pegar a embalagem roxa e o entregou, nem ligou para o resto que caia no chão e para o riso que ele deu quando viu o ocorrido, ela apenas esperou que ele rapidamente fizesse o que tinha que fazer, ela gostava dele, gostava de verdade, gostava quando seus dedos se perdiam naquele emaranhado negro que eram aqueles cabelos, gostava tanto quando aquelas mãos inquietas se perdiam entre suas pernas e a fazia suspirar, mordeu os lábios quando viu aquele sorriso perdido a encarando ela engatinhou felinamente até ele e o pegou pelas mãos, o amava mais do que amava as sextas feiras, o amava mais do que amava os dias anteriores aos feriados, se encaixaram perfeitamente, eles eram assim se encaixavam bem, mesmo quando não combinavam em nada.

Reparou mais uma vez que ela também estava com purpurina e em meio ao balançar dos corpos, reparou as mãos perdidas em sua cintura, os olhos fechados, os apertos, ela o abraçou desejando que todos os dias fossem carnavais, sentiu quando os braços dele a enlaçaram também, caíram juntos na cama, se encararam quase que ao mesmo tempo que encararam o relógio, o bloco de  rua tinha se dissipado, tinham certeza que os celulares estavam entulhados de mensagens, o tempo pareceu parar em meio a um beijo calmo, se perguntaram silenciosamente o que aconteceria depois daquele dia, o que restaria daquele dia, tudo seria esquecido mais uma vez no fim da quarta-feira de cinzas?

Sentaram-se na cama e riram de suas aparências, estavam ensopados, completamente bagunçados, ainda ouviam alguma marchinha de carnaval passando na rua, ela se encostou nele pensando em qual o motivo de eles nunca darem certo, ele era de virgem ela aquariana, os ascendentes eram acidentes astrais, nenhuma das luas se cruzava, não tinham nada em comum e se dependesse dos astros eles nem ao menos trabalhariam juntos, ela riu mais uma vez enquanto ele se arrastava até o banheiro.

_Você vem? – ela não soube o que responder, ficou parada enquanto ele catava as roupas no chão e adentrava o banheiro.

Respirou fundo, estava com fome, queria mais, talvez fazer do resto do ano um grande carnaval não fosse tão ruim, mal percebeu quando seus passos tortos caminharam até o banheiro, abriu a porta de vidro e o abraçou por trás a água fria inundou ambos os corpos, enquanto eles respiravam aceleradamente a procura de uma resposta.

Ele a amava mais do que sorvete de chocolate, ele amava aquele riso engasgado em suas costas, amava a admirar enquanto ela buscava soluções inteligentes para mudar a órbita do mundo, para o tirar de órbita, ele se sentia perdido sempre que estava perto dela, já havia jurado tantas vezes se afastar, mal percebeu quando ela o apertou mais e soluçou, ele raramente a via chorando, se virou rapidamente se soltando dela, e levantou seu rosto, beijou seus olhos como tantas vezes ela fazia com si.

_Eu não quero mais… – o peito dele parou e ele concordou enquanto fechava o registro, quando se preparou para sair daquele pequeno espaço ela o segurou. _Eu não quero que seja passageiro, quero que não acabe na quarta-feira de cinzas.

Ele mal acreditou quando ouviu aquelas palavras tão doces saindo da boca daquela que jurava não se amarrar a ninguém.

_Aceita fazer do meu ano um eterno carnaval?

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Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc) em cima de temas predeterminados mensalmente. Um dos temas de Fevereiro é Amor de Carnaval.

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Pena & Tinta : Tão opostos e tão iguais.

passaros
imagem retirada do Pinterest, não consegui achar autor. ;(

Cartas de amor devem ter saído de moda, mas eu não fui comunicada formalmente a respeito disso, me apaixonei, mas vezes tentando te odiar, do que eu poderia imaginar, na verdade eu me assusto quando escrevo isso, e leio em voz alta.

Te conheci enquanto amarrava meu tênis e me preparava para cobrar uma falta, na aula de educação física, ainda não acredito que os meninos iriam realmente te chamar para entrar no meu lugar, ok, eu já superei isso, (mentira, não superei! Machistas) mas você não aceitou, preferiu continuar lendo aquele seu livro de histórias fantásticas, affs, te achei um tanto quanto “metido”.

Pensando bem você realmente era metido, exibido e estranho, aquele cabelo arrumadinho, aquele tênis completamente branco, aquela calça jeans limpa… Que tipo de adolescente era você? Com toda certeza alguém bem estranho, estranho o suficiente para no primeiro trabalho em grupo a turma inteira te odiar. “Eu não vou fazer com ninguém professora, vou fazer sozinho, eu sou capaz”. É…, naquele dia você conseguiu a antipatia de bastante gente.

Não preciso te lembrar que no final do dia, você precisou correr bastante antes de levar o primeiro soco, e cair de cara na lama. Demorei muito para ir te ajudar, fiquei meio estática quando percebi que os meninos estavam gritando palavras ofensivas na sua direção, o professor de Educação Física foi bem mais rápido do que eu, e te tirou do meio daquilo tudo, enquanto anotava o nome de cada um dos agressores.

Na última semana antes de fecharmos o bimestre você simplesmente sumiu, achamos que você tinha finalmente desistido, mas que tipo de adolescente desiste de algo e os pais não ligam? Essa hipótese foi quebrada quando a coordenadora recebeu uma ligação do seu pai, avisando que você estava doente. Duas semanas depois você apareceu com o braço quebrado.

No dia que você esqueceu seu caderno, e saiu sem nem olhar para trás, eu te segui, e para minha total surpresa, você não percebeu, lá estava você desajeitadamente entrando naquela academia de dança. Balé, quem diria o “senhor arrogante” fazia balé, não preciso dizer a quantidade de pensamentos que surgiam na minha mente né?

Fui homofóbica e o fato de ser adolescente não era desculpa para isso, muito menos para tirar a foto que eu tirei de você, enquanto fazia algo complexo na ponta dos pés, acho que nunca poderei falar o nome daqueles passos. Também acho que nunca serei capaz de realiza-los, lembro que tentei te imitar enquanto te observava.

No fim daquele dia não enviei a foto, não criei perfil falso, não fiz nada a não ser te olhar e imaginar como alguém tão idiota conseguia fazer algo tão lindo, é eu achava, eu ainda acho balé algo intenso e lindo, naquele instante eu só pensei que talvez fosse bom tentar te entender um pouco.

Te devolvi o caderno, e você não me agradeceu, sugeri fazermos o trabalho junto e você simplesmente continuou andando, quando já estava quase perdendo a paciência nossa professora de história resolveu que todos deveríamos fazer os trabalhos em grupo, ninguém queria fazer com você, e você não queria tirar zero.

Fazer um trabalho de ensino médio nunca tinha sido tão difícil, livros, livros, livros?????? Com tanta coisa na internet, como aquela professora pode nos mandar pesquisar na biblioteca da escola, você não falava muito, você não falava nada, apenas copiamos algumas coisas, tiramos algumas xerox e só.

No fim daquela semana já tínhamos feito tudo, era sexta, não nos despedimos, mas você foi embora, chutou as pedras pelo meio do caminho e se perdeu entre as ruas. Eu sabia para onde você ia.

Durante todo aquele ano eu fui a sua única parceira de grupo, o que me causou sérios problemas, era representante de turma e tecnicamente eu havia abandonado meu grupo de trabalho para te ajudar, e não estava recebendo nem bom dia, adolescentes são vingativos, um dia resolvi que não queria mas tentar te ajudar, não queria mais ser do seu “grupo”. Foi a pior coisa que eu fiz admito.

Lá estava você quietinho demais, disperso, fingindo ler aquele livro, aquele maldito casaco escondia quase toda a sua mão, eu não deveria me preocupar, mas estava calor demais e você parecia não ligar para as “zoações” que ocorriam no seu entorno, aquelas brincadeirinhas nada inocentes já estavam cansando, eu não via mais graça. Eu te segui naquele dia, fiquei preocupada, você estava estranho, tinha sobrado nos grupos e eu me senti culpada.

Você havia entrado em uma lanchonete, limpou os olhos e eu estranhei, você estava chorando, hoje eu me pergunto qual o problema? Homens choram… Uma moça bagunçou os seus cabelos enquanto dava um leve beijinho em seu rosto secando suas lágrimas, algo aqui dentro do meu coração ficou bem espremido, sabe o que eu pensei naquele momento? “Ele curte meninas????” Como eu era idiota, me desculpe, deveria ter me perguntado o motivo das suas lágrimas.

Um dia eu apareci naquela lanchonete, você me encarou surpreso, mas não falou comigo, eu também não falei com você. Dias se passaram até você finalmente se sentar ao meu lado e perdurar o silêncio por minutos que mais pareciam horas, enquanto eu bebia o suco de laranja.

“Você pode fazer o trabalho de matemática comigo?”, te encarei durante muitos instantes, sem nenhum por favor, “claro que não”, você se levantou e foi se embora. Eu deveria ter perguntado o motivo de você ter quebrado aquele seu orgulho idiota, mas não fiz, outro maldito erro. Você ficou de recuperação em matemática, você não tinha problemas com números quando eu te conheci, eu não conseguia entender como aquilo era possível.

As férias de dezembro logo chegaram, soube que você tinha passado de ano com média cinco, passou, viajei e só voltei em janeiro, quando fui naquela lanchonete você não trabalhava mais lá, não frequentava as aulas de balé e eu não entendi como você tinha evaporado dessa forma, talvez tivesse viajado, eu desejei que só fosse uma viajem.

A primeira semana finalmente aconteceu, mas você só apareceu duas semanas depois, estava com o braço enfaixado, com olheiras, e andava devagar, jogou suas coisas na cadeira do fundo, aquela que ficava perto da parede, tombou sua cabeça ali, a professora suspirou quando você não respondeu, alguns deram leves risinhos, outros cochicharam, mas estávamos no terceiro ano e bem…, no terceiro já somos meio-adultos, alguns não acharam graça e se preocuparam com você, eu me preocupei.

Você era uma figura estranha, nunca pensei ver você perdendo a cabeça e socando alguém, também nunca pensei te ver fumando, mas lá estava você fazendo tudo aquilo que esperavam que você fizesse…

Quando suas notas baixas no primeiro bimestre surgiram e você passou a não responder os professores, comecei a perceber que eu deveria ter feito aquele trabalho de matemática com você. Pela terceira vez te segui, você não foi para lugar algum especificamente, só sentou no chão de uma rua qualquer, enquanto a chuva caia e se misturava com suas lágrimas, é meninos choram, eu já tinha aprendido isso. Me sentei ao seu lado e você me ignorou, não percebi quando comecei a soluçar, mas que droga eu tinha me apaixonado por você!

“QUAL A PORRA DO SEU PROBLEMA” – Foi essa a primeira frase que eu troquei com você em meses, você me ignorou e eu te bati, foi um soco forte que fez você fechar os olhos.

“O MEU PROBLEMA SÃO OS SERES HUMANOS” – Como assim seres humanos? Fiquei parada tentando entender aquilo, mas você não continuou, se levantou e eu te segui, você me deixou te seguir enquanto fumava mais um dos seus cigarros, entrou naquela casa e bateu a porta na minha cara. No dia seguinte você não foi, nem no outro dia, no terceiro dia eu bati na sua porta, seu pai falou que você estava doente.

Quando finalmente apareceu eu me sentei ao seu lado, estava decidida a não me livrar de você. Mas que DROGA, você nem falava nada, mas por algum motivo você tinha voltado a fazer os trabalhos.

“Eu te vi no dia que tirou aquela foto na academia”, eu te encarei surpresa, você não me olhava estava observando alguma coisa mais interessante em algum outro canto, “minha mãe fazia balé, eu me sinto perto dela quando danço”. Eu não entendi, ainda não entendo, os motivos de você finalmente ter começado a falar…

Quando eu conheci seu pai achei que ele era quem te deixava daquele jeito, machucado. Não, não era seu pai, e eu descobri isso quando você surtou enquanto fazíamos um trabalho de geografia, lembra? Você se cortou na minha frente, eu me desesperei, eu gritei com você, segurei seus braços e te beijei, você desmaiou, eu entendi o motivo das camisas grandes, eu não duvidava que tivessem mais daqueles cortes espalhados. Você não me encarou por dias, eu também não tinha te encarado. Droga eu realmente gostava de você, mas não da forma como você gostava de mim.

Apaguei aquela foto do meu celular quase que ao mesmo tempo que seu pai me ligou pedindo para conversarmos, seu pai sim era um cara engraçado, ele nem sabia como começar aquela maldita conversa, sua mãe tinha morrido, você se mudado para morar com ele, trocou de escola, teve que abandonar o namorado, finalmente eu tinha descoberto que você era gay, finalmente eu tinha descoberto sua história, sua depressão e sua tendência autodestrutiva.

Eu também era meio autodestrutiva naquela época, engoli minhas lágrimas enquanto te encarava brincando com uma caixa de música na cama, eu estava decidida a não te deixar sofrer, me sentei ao seu lado, respirei fundo enquanto vi você se sentar e abaixar os olhos me perguntando se eu sabia, o silêncio era tão ensurdecedor que eu quase me perdi enquanto meu corpo me empurrava na sua direção, te abracei e foi nosso primeiro abraço debulhado em lágrimas. Droga eu te amava, e isso estava me destruindo.

Nos tornamos amigos finalmente, era final de ano, vestibular, provas finais, decidir o que fazer durante boa parte da vida era algo tão complexo que tudo que eu pensei foi “não quero fazer nada, quero fazer de tudo”, minha primeira opção foi uma universidade longe de casa, liberdade finalmente, trote, professores malucos, solidão. Passamos pelas mesmas coisas em locais diferentes, não estudávamos mais juntos, mas você parecia melhor, eu não me preocupei, seu pai também não, mas estávamos errados, nenhum de nós notou suas olheiras voltando a surgir, ou suas palavras sumindo em meio as frases. Droga eu era sua amiga, eu te amava, como deixei isso acontecer.

Naquele dia você simplesmente não ligou avisando que chegaria mais tarde, tinha sumido, comunicamos a polícia, dias depois você apareceu, estava um caco, não queria falar, tivemos que te dopar para que cuidassem de você. Você só ficava dopado, mas um dia, um determinado dia você simplesmente se cansou.

Eu realmente deveria não ter te amado, talvez se eu tivesse te amado menos eu tivesse percebido toda aquela dor disfarçada de sorrisos pequenos, eu ainda penso em você toda vez que abro aquela caixa de música, ainda penso em você enquanto ouço alguma música clássica e ainda penso em você quando percebo que eu poderia ter amenizado a sua dor.

Brincadeiras machucam, arrancam sangue, cansam… Eu entendo o motivo de naquele dia você me dizer que o seu problema eram os “seres humanos”, acho que no fundo esse é um problema de todos. DROGA eu ainda te amo…

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Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc) em cima de temas predeterminados mensalmente. Um dos temas de novembro é OPOSTOS.

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“As vezes eu falo com a vida”

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Foto de Tércio Teixeira, Morro da Mangueira, RIO, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas

Me abrace e me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe sentar na poltrona
No dia de domingo (domingo!)

O Rappa

A forma como o olhavam dizia muito mais do que qualquer palavra pronunciada, era como um mar de história, história escrita a muitas décadas. Era uma epidemia que se espalhava como a agonia que subia em sua garganta, ele queria gritar, mas não podia.

Revirou os olhos, ignorou “os canas” do outro lado da rua, apertou o passo, endireitou a mochila, mas antes mesmo de atravessar a segunda esquina ele ouviu o primeiro aviso, o som dos tiros ecoaram, as crianças se abrigaram nos braços da mãe, baixaram as portas do comércio, ele apenas olhou para o relógio enquanto fazia mais uma vez o sinal da “cruz”, que “ele o protegesse”.

Entre o silêncio gritante que se instaurou naquelas ruas sem asfalto, ele tropeçou nas pedras, enquanto via as portas sendo arrombadas, sentiu novamente os olhares, baixou a cabeça ao passar bem perto de uma das crianças que praticamente viu crescer, o tiro tinha sido para ele, jogado ao chão, como tantas outras, podia ouvir o grito silencioso daquela mãe.

“Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!”

_Tá olhando o quê? – Perguntavam, ignorou. Apertou o passo, cravou os olhos ignorando as lágrimas, “podia ter sido eu!”, ele sempre pensava.

Enquanto se perdia nos seus pensamentos, ouviu mais tiros, viu os carros pretos, os homens armados, estavam invadindo novamente, adentrando as vielas onde a “Segurança” nunca entrou.

“Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz?”

Se abrigou no bar de esquina. O tal português não gostava muito de si, torceu o nariz antes dele entrar e pedir uma garrafa d’água, viu a mulher correndo, ofereceu-lhe água e ela negou. Se sentou no chão mesmo, ouviu a gritaria, o choro, podia imaginar o sangue, todos ali eram seus conhecidos, a dor era algo eminente.

_Já acabou? – Nem percebeu quando o dono do bar o olhou de cima para baixo, o medindo, olhou suas roupas, sua mochila e finalmente seus olhos. Se negou a responder, ele não podia o expulsar e tão pouco ele poderia sair dali, limpou os olhos e continuou a ouvir todas aquelas vozes que vinham de tão longe e ainda assim tão perto.

Pegou os cadernos na mochila, e resolveu se perder por ali, era assim que sua mãe tinha o ensinado. Sempre se acalmava e se lembrava dela enquanto pegava os cadernos no meio de todo aquele barulho. Ainda podia a escutar brigando consigo, tentando o distrair, o mandando estudar, dizendo que “aquele lugar” não era para si. Nunca entendeu aquela frase, aquela era sua casa, ela deveria ser segura.

“Eu não quero ficar
esperando
o tempo passar, passar”

Não percebeu quando suas lágrimas voltaram a cair e muito menos quando suas mãos automaticamente passavam as folhas, o dono do bar mais uma vez o encarava, um olhar descrente em negação, um suspiro e mais uma pergunta.

_Difícil né? – não era difícil, talvez até fosse, mas não aquilo, se limitou a responder um “unhum” e voltou sua atenção para o livro, o fechou finalmente, haviam cessado a guerra, se levantou calmamente, arrumou novamente a mochila e esperou o homem finalmente abrir a porta do bar, saiu, estava chovendo, apressou o passo até finalmente chegar no ponto de ônibus, suspirou apertado, quando viu as crianças saindo da escola, corriam desesperadas pela rua, as imaginou encontrando tudo aquilo do qual estava fugindo.

O ônibus finalmente apareceu, não parou, o motorista tinha sido alertado a não parar ali, caminhou até mais a frente, andou por toda aquela avenida a pé, olhou os carros apressados, ouviu as buzinas, observou o rio começando a encher, sabia que quando chegasse teria que escoar a água, ficou frustrado pensando se havia lembrando de retirar tudo do chão.

“Não dava tempo de voltar”, o relógio mais uma vez o dizia que estava atrasado, apressou o passo, mas o manteve cauteloso, não podia e nem queria ser “confundido” novamente, “atividade suspeita”, ele era uma “atividade suspeita” desde que nascerá.

“Oh! Meu Deus
Se eu não rezei direito
A culpa é do sujeito
Desse pobre que nem sabe fazer a oração”

Ignorou os pensamentos, e enxergou o ponto de ônibus, correu um pouco a fim de chegar mais rápido, viu que recuaram a sua presença, se arrumou um pouco, limpou um pouco a roupa e evitou mexer nos bolsos e na mochila, tudo que ele menos queria era parecer uma atividade suspeita estando atrasado.

Embarcou no ônibus lotado, colocou a mochila pra frente, e fechou os olhos, teria que encarar mais alguns bons minutos em pé se nada estivesse alagado, ignorou toda a confusão dos bancos preferenciais, enquanto voltava sua concentração para se lembrar dos artigos, falou em silêncio, e percebeu que arrancou a curiosidade de um menino sentado no colo da mãe, mexeu um pouco o cabelo enquanto observava que ela brigava com ele por algum motivo, não entendeu muito bem, mas viu o menino rindo e resolveu acompanhar aquele riso sapeca destinado a si.

Observou quando a moça entrou, ela também estava molhada e apresada, chegou a trocar olhares com ela, principalmente quando ela esbarrou em si propositalmente, ela o conhecia, já o tinha visto outras vezes ali, naquele mesmo ônibus, trocaram algumas poucas palavras e logo depois cada um voltou a se enterrar em seu próprio mundo.

Ela era linda, mas não tinha nome”.

Apertou o ferro de apoio do ônibus quando o motorista freou, alguém tinha acabado de ser atropelado, o trânsito tinha parado de vez. Ficaram bons minutos esperando tudo se resolver, viu o homem levantar apressadamente, pegar suas coisas do chão, falar que “estava tudo bem” e adentrar a condução apressadamente, tempo era dinheiro…

O ônibus voltou a andar, acelerou, ouviu alguns xingamentos do motorista enquanto ele cortava alguns outros carros na avenida, era sempre assim, deixou alguns no ponto, outros fora até finalmente chegar aquele que todos já conheciam, “Olha a bala, a paçoca, o amendoim, tudo baratinho só na mão do amigo, lá fora é mais caro”, ele já havia decorado o discurso, os rostos eram diferentes, mas a oratória era a mesma.

_Ajuda o parceiro aqui, irmão. – sentiu o toque nos braços, mostrou os bolsos vazios e o sorriso de canto, o homem entendeu, sempre entendiam, no fundo rolava sempre aquela identificação, viu o homem caminhando dentro do coletivo e por fim jogando um pacote de amendoim para o motorista, desceu e agradeceu.

A viagem seguiu tranquila até o seu destino, desceu naquele bairro diferente, prédios altos, poucas pichações, o olhavam de cima sempre, abaixou o olhar enquanto apertou o passo, evitou encarar, atravessou a rua olhando apenas para os lados, desviou das pessoas e antes que o parassem por algum motivo ele descruzava os caminhos, o céu ali estava limpo.

“As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão”

Encarou os morros que cercavam aquele local, ainda estava chovendo daquele lado, mas ali não, o comercio estava aberto, as crianças andavam tranquilamente, caminhou pela calçada, admirou o asfalto liso e não encarou aquelas pessoas, viu de relance um carro passando, os homens armados passando por ele, deu uma breve olhada para dentro do “camburão”, o suficiente para reconhecer um rosto, a mão caída para o lado de fora, o corpo jogado, com toda certeza ainda chovia no morro.

Atravessou a última rua até finalmente entrar naquele lugar, ainda tinha prova, estava atrasado e tinha certeza que havia perdido todo o primeiro tempo, correu apresado, não esperou o elevador, correu desesperadamente no único lugar em que se sentia à-vontade para correr, escorregou um pouco, admirou a vista enquanto tinha pressa, olhou o entorno e observou tamanha contradição, prédios, casas, medo, lágrimas, morro, asfalto.

Estacionou seus passos, colocou a mão na porta, observou o olhar repreensivo do professor enquanto ele desviava pelo canto dos olhos ele caminhar até seu lugar, permaneceu calado, fez algumas anotações e trocou alguns olhares com os colegas enquanto ouvia as indiretas a respeito dos atrasos.

Recebeu a prova, secou as mãos, bateu na testa ao perceber que havia esquecido o estojo, pegou emprestado o material, refletiu, leu, respondeu, demorou mais do que deveria, fez a prova, saiu correndo voltaria mais tarde, estava atrasado para o trabalho, olhou o relógio, andou até o trabalho, vestiu o uniforme, atendeu, atendeu, atendeu, foi ignorado quando falou que algo estava errado, “ele estava errado”, esqueceu do almoço, correu para a próxima aula, bateu a cabeça de cansaço, se forçou a ouvir o que tanto falavam naquela aula, olhou pela janela, para o relógio, bateu os dedos na mesa.

_Está com pressa? – Era claro que estava, estava chovendo, ele podia ouvir bem longinquamente que estava se tendo um tiroteio por algum lugar, mas mesmo assim respondeu que não, encarou os malditos três tempos finais de uma quarta feira como se fossem os últimos, faltavam só mais alguns meses para tudo terminar, só mais alguns meses.

“Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões”

10 horas, correu até o ponto, algumas luzes piscavam, estava deserto o suficiente para ele pensar em pegar dois ônibus ao invés de um, mas percebeu que se fizesse isso possivelmente ficaria sem dinheiro no final da semana, apressou os passos, limpou os olhos pelo sono e por sorte o ônibus já estava lá quanto chegou, o motorista o conhecia, o esperou.

Finalmente estava sentado, encarava a noite chuvosa que pincelava aquele lugar tão contraditório, fechou os olhos inalando a fina brisa, podia ter certeza que ficaria doente, tentou evitar esses pensamentos e voltou a pensar em coisas banais, desejou que a tal moça de todas as manhãs entrasse no ônibus, ele não sabia quem ela era, nem para onde ia, mas gostava de imaginar coisas sobre ela, mesmo que no fundo ele soubesse serem impossíveis de acontecer.

Não deu sinal, estava cansado demais para se lembrar do ponto, mas por muita sorte o motorista o conhecia bem o suficiente para saber que ele havia esquecido, deu um grande sorriso enquanto descia as escadas e desejava “boa noite” e agradecia, correu para casa, lembrou-se da chuva pela manhã, olhou o rio e como de esperado ele havia subido, podia ver a marca d’agua na parede assim como as ondas de terra no chão.

As ruas estavam silenciosas, vazias, algumas fracas luzes iluminavam seu caminho, podia ver alguns homens fardados o seguindo com os olhares, entrou em casa, pegou o rodo escoou a água, se jogou no chão, cansado, se arrastou até o banheiro, ligou a água fria, ainda não podia dormir, se sentou no corredor, onde não haviam janelas, ascendeu a fraca luz, e voltou a sua leitura…

Mal percebeu quando seus olhos finalmente fecharam…

A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!(Medo!)
As vezes eu falo com a vida
As vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz?
– O Rappa-

Músicas Utilizadas:

Minha Alma,

Pescador de Ilusões,

Súplicas  cearenses,

Lei da sobrevivência,

Rodo cotidiano.

O Menino, as Cores e o Mundo

 

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Imagem retirada do site: mensagens e reflexões

Aqui estava eu em mais uma das inúmeras madrugadas cariocas pensando em amigos meus, um em especial, quando vi, já tinha escrito o texto…

Existia no mundo um menino que enxergava tudo em preto e branco, isso não o tornava triste, não, as cores para ele eram sentimentos, então seu mundo era colorido com as cores mais intensas possíveis.

O Azul sempre o remeteu a serenidade que ele tinha nos dias chuvosos, ele amava esses dias, ele corria para o lado de fora, entre a tempestade e todos os trovões, e ia observar a alegria das flores ao receber as gotas de chuva e a espontaneidade das crianças em pular as poças d’água, era como se isso causasse leves cosquinhas nele, ele sorria enquanto imaginava que aquelas cenas sem dúvida seriam embaladas pela cor azul…

Sorrisos azuis…, era assim que ele pintava seu mundo, com grandes e inesquecíveis sorrisos azuis, sorrisos repletos de prazeres simples e imateriais.

Os dias quentes o remetia sempre ao amarelo, ele gostava de sorrir enquanto se sentava e apreciava os primeiros raios de sol encontrando sua pele, era quente, diferente, era como o beijo dos apaixonados casais, era como os seus beijos, os beijos que ganhava ao pé do ouvido nas madrugadas insanas, o amarelo era tão voraz quanto qualquer toque, era suave, intimo, era um movimento bilateral. O amarelo no fundo era o encontro de corações, um grande abraço invisível que acontecia.

Ele vivia desses abraços intermináveis que pintavam seu mundo de amarelo.

O vermelho o remetia a doces, ele via o vermelho e sentia vontade de o devorar como se ele fosse feito de uma droga viciante, ele amava aquele doce, ele simplesmente mergulhava naquela sensação que o dava coragem de enfrentar qualquer coisa sem desistir. Ele corria, corria e corria com aqueles olhos tímidos, com aquele sorriso solto e devorava qualquer coisa que via na sua frente e o fizesse se sentir bem.

Ele amava aquela sensação de prazer, era como respirar, essencial para sua vida. O vermelho era seu prazer, e seu prazer era gritar para o Mundo que ele queria o descobrir, que ele queria o devorar…

Quando fechava os olhos e se perdia na imensidão que era seus sonhos, ele Imaginava o verde, e era como se perder no Mundo, era divertido imaginar que entre tantas cores a que se fazia mais presente era o verde, era como pular de um avião sem paraquedas, uma queda livre. O verde era aventura, uma aventura que invadia todos os órgãos do seu corpo, ele amava se sentir verde, se sentir parte de algo e lutar por esse algo tão livremente quanto qualquer pássaro na floresta, ele era verde por inteiro.

Ele era livre, e talvez por isso tantas vezes ele achou que não cabia no mundo… Talvez por isso ele tenha inventado tantas vezes seu próprio Mundo e o pintado de cores tão peculiares que nenhum outro alguém poderia as identificar…

Sabe quando você se sente o inventor do Mundo? Então quando o menino se sentia dessa forma ele se sentia abóbora. Se sentir abóbora era se sentir quente e doce, o menino sempre se sentia assim, quando inventava que era o rei do mundo. Ele corria por aí inventando de consertar corações quebrados, seus passos ágeis formavam quase uma orquestra, ele raramente se preparava para os tombos, mas… ele não se importava em cair, se isso fizesse os outros voltarem a sorrir.

Abobora não era uma cor tão legal assim, eram intermináveis os dias em que ele se sentia abobora e voltava para casa com o joelho ralado e o sorriso travesso no rosto, nesses dias tudo que ele precisava era a certeza de que suas ações tinham valido a pena, afinal quem liga para um joelho ralado no fim das contas?

Se sentir abobora sem dúvida era melhor do que se sentir violeta, entre todas as cores a que mais o remetia ao “preto e branco” era o violeta, ele gostava da cor apesar dela ser tão fria, tão fria quanto os dias tristes, ele sempre precisava de abraços nesses dias, ele gostava de se sentir quente e não frio… Sabe os dias violetas, eram os dias em que ele mais se sentia criança, hora estava agitado procurando por uma resposta impossível, hora estava procurando se sentir acolhido…

Os dias violetas eram dias chatos demais, cheiravam a saudade, a angustia e a medo, ele não gostava de sentir medo, mas era difícil compreender o menino, mesmo gostando tão pouco de Violeta ele ainda gostava dessa cor, ele se sentia inspirado a ter coragem e a tingir esses dias com várias cores, as misturando formando as cores mais improveis possíveis.

É ele realmente amava viver em um Mundo “preto e branco”, sua maneira de enxergar o mundo era algo único e talvez por isso ele enxergasse melhor do que qualquer outra pessoa que visse todas as cores…